Ofício 378 AC18 da Polícia Federal, de 2 de agosto de 2011, transcrição de telefonema às 16h45:
- Cachoeira – Fala, Junior ! (“Junior” é um dos apelidos de Policarpo na organização criminosa. Outro é “Caneta”.)
- Policarpo – Tudo bem… E aquele nosso negócio ?
Cachoeira fala do Parque Mutirama e “operação” que envolve a bilheteria do parque.
E adverte que um repórter “do” Policarpo, o Gustavo Ribeiro, estava em Goiânia atrás da verba do Mutirama.
Policarpo diz que vai ver o que é.
E pergunta como está aquele negócio da fazenda.
Cachoeira diz que está tudo com ele (provavelmente Gustavo).
E diz a Policarpo: olha o que Gustavo está fazendo, vê aí o que ele precisa.
O
Senador Fernando Collor subiu à tribuna do Senado, neste dia 30 de
outubro, para pedir a prorrogação do prazo de encerramento da CPMI do
Robert(o) Civita.
E reproduziu esse novo diálogo entre o diretor da Veja em Brasília e o chefe do crime organizado.
Collor pergunta: a Veja tinha ou não tinha controle sobre as atividades de Policarpo, esse chumbeta ?
E o Robert(o) Civita tinha ou não tinha o chamado “domínio do fato” sobre a atividade criminosa ?
Que,
além de ser o “Godfather” da Veja, Civita instituiu a “policarpia” na
Veja, com Policarpo e outros, também “filhos da pauta”.
Collor
conta que no dia 2 de março de 2012 procuradores subordinados a Gurgel
passaram à Veja ( ao supra-citado Gustavo) documentos das operações
Vegas e Monte Carlo, que corriam sob segredo de Justiça.
Collor chega a chamar a Procuradoria Geral da República de “cafua”.
Collor
volta a pedir que a CPMI que recolha os depoimentos do brindeiro Gurgel
e seus procuradores, e de Policarpo, a policarpia e Robert(o) Civita.
ESCUTE COLLOR DETALHANDO A ATUAÇÃO DA QUADRILHA DA "REVISTA VEJA"
E o brindeiro Gurgel, amigo navegante, é aquele que quer recolher o passaporte e prender o Dirceu …
Viva o Brasil !
Como diria o Protógenes, jornalista bandido bandido é.
"Um estranho processo político,
no qual a
mídia precede o Ministério Público, antecipa a decisão do Supremo e
constrói uma
agenda eleitoral que dá causa e oxigênio a uma oposição que sequer tem
oxigênio".
Uma frase de um ministro do STF no
processo do
“mensalão” sintetiza a possibilidade de uma crise de legitimidade do
Supremo, no
próximo período, em função de julgamentos que começam a pipocar sobre os
torturadores da ditadura: os réus, disse ele, são “profanadores da
República”.
Mas os assassinatos e torturas - contra pessoas indefesas sob custódia
do Estado
- transformou os agentes da ditadura em “políticos”, abrigados na Lei de
Anistia? O artigo é de Tarso Genro.
Tarso Genro
Com o presente texto e outros
futuros, pretendo dar algum tipo de colaboração ao debate político e
jurídico,
que versa sobre o futuro da nossa democracia, a partir do julgamento do
“mensalão”, a saber, considerando-o episódio histórico, cujos efeitos
ainda são
difíceis de serem apanhados na sua verdadeira dimensão: até que ponto o
Estado
Democrático de Direito suporta transformações econômico-sociais que
utilizem as
suas instituições para atacar desigualdades? Em que medida o “clamor
público” -
falsificado pela mídia “partidarizada” (no sentido de defender
abertamente uma
das “partes” em conflito político aberto) - perverte estas instituições?
E,
finalmente, o Brasil realmente mudou, depois deste histórico
julgamento?
Para adiantar algumas opiniões que sustentarei ao
longo do
debate adianto: o Estado de Direito atual, com o atual sistema político
eleitoral não tem condições de sustentar as promessas de promoção social
e
econômica, que estão inscritas nas suas normas constitucionais. A mídia
não
compõe um “quarto poder”, mas ela é o próprio “estado ampliado”: é
estado e
sociedade ao mesmo tempo, ordena as relações políticas e jurídicas, de
acordo
com as forças econômicas e sociais hegemônicas na formação social
concreta. O
Brasil não mudará nada, após este julgamento: o que pode mudar o Brasil é
uma
profunda reforma política e um ajuste com seu passado violento,
autoritário,
escravagista e, até hoje, com um presente profundamente desigual, aceito
por um
povo paciente e generoso.
Nas análises que fiz, não manifestei
convicções
pessoais sobre a culpabilidade dos réus dentro da ordem jurídico-penal
vigente.
Busquei analisar a coerência interna da ordem. Procurei mostrar que - em
face do
falso clamor público criado externamente às instituições - os réus
principais já
entraram condenados no julgamento. E que, por coerência necessária
(entre o
sistema político e o sistema de direito), a falsa consciência, promovida
externamente ao Tribunal e a futura decisão do Tribunal (já proferida)
deveriam
coincidir.
Observei que, para isso, seria necessário violar o
princípio
da presunção da inocência, pelos menos em relação aos réus políticos do
processo. Usar argumentos oferecidos por doutrina, criada dentro da
própria
ordem (“domínio funcional dos fatos”) foi passo necessário para promover
um
julgamento “devido”, “legal” e “legítimo” - coerente, pois, com o Estado
Democrático de Direito em plena vigência.
Algumas poucas
observações
críticas, que se reportaram aos meus textos, entenderam que, a partir
daí, eu
estaria concluindo que num julgamento originário de “devido processo
legal” -
dentro da ordem democrática - decorrem necessariamente sentenças que
devemos
entender como “justas”. Não penso assim. A Justiça em “abstrato” pode,
ou não,
estar refletida numa sentença concreta. Fazer Justiça - em abstrato - “é
dar a
cada um o que lhe é devido”. Mas, devido segundo o quê? Segundo o
Direito
Natural? Segundo os mandamentos divinos? Segundo a Lei escrita? Segundo
os
princípios da Constituição e as intenções do Constituinte? A mediação
feita pelo
Estado para “concretizar” a Justiça - na medida possível da ordem
jurídica
específica- é feita pelas instituições: os homens concretos que estão
nas
instituições.
Entendo, por exemplo, partindo de uma ordem ideal
(aliás
todos partimos de ordens idealizadas para definir o que é “justo” ou
“injusto”,
mesmo que nos aferremos à “ordem escrita”), que “fazer Justiça” é
suprimir
desigualdades reais: reduzir ou suprimir opressões, respeitar
diferenças, tratar
desigualmente os desiguais para “compensar”, mas isso só é possível num
outro
sistema social, num outro sistema econômico, num outro sistema político,
organizado conscientemente com esta finalidade.
Se os Tribunais
pudessem,
por exemplo, voltar-se contra a ordem do capital e da propriedade
privada, para
repor as expropriações materiais e morais que o regime reproduz,
incessantemente, entre os diferentes grupos de humanos, nos diversos
andares das
classes, o Estado Democrático seria outro. Mas isso ainda é, não só
indeterminado para o futuro, mas também inexistente no passado, como
indico
neste exemplo concreto: se os Tribunais pudessem julgar improcedente uma
ação de
despejo contra locatários que, comprovadamente, não tem recursos para
pagar os
seus alugueres e pudessem, ao mesmo tempo, distribuir os imóveis dos que
são
proprietários de centenas deles, para indivíduos e famílias que moram
nas ruas,
poder-se-ia crer que o Estado Democrático de Direito seria difusor de um
sentido
de Justiça “em abstrato”, segundo a pré-visão de mundo que adotamos.
Mas
a Justiça em abstrato da qual partimos, para analisar a grandeza do
Direito
Objetivo ou sua pequenez, é a Justiça que - quando feita - parte da
consideração
que os homens são iguais para viverem em igualdade, em termos materiais e
culturais: uma Justiça corretiva das desigualdades reais. A Justiça em
“concreto”, dentro de uma ordem concreta - quando feita - parte da
ficção da
igualdade perante a lei, sem a finalidade de transformar esta ficção,
ainda que
gradativamente, em realização de igualdade real.
Por que isso é
impossível? Porque o Estado Democrático de Direito baseia-se, também, na
expectativa da segurança jurídica permanente para todos, sem exceção.
Nesta
medida, os reflexos da segurança jurídica são desiguais: a segurança “de
ter”,
para quem “já tem”, resulta em efeitos práticos diferentes da segurança
de
“poder querer ter”, para quem “não tem”. Parece óbvio, que isso
significa
congelar o mundo real como mundo sempre fadado a ser desigual e
concretamente
injusto.
Logo, o Estado Democrático de Direito é um Estado
promotor de
desigualdades consensuais, que abrem oportunidades de igualdade real,
limitadas.
E o fazem, tanto por meio das liberdades políticas (no terreno da
Política),
como por meio do princípio da igualdade perante a lei (no terreno do
Direito).
As decisões judiciais, frequentemente, fazem a síntese, pela autoridade
estatal,
das conflitividades existentes entre estas formas de composição do
Estado
(Direito e Política), apontando o dissenso ou a convergência entre
elas.
Mais do que isso só a Revolução. Como não é o caso, nem dos
governos do Presidente Lula, nem dos réus políticos do processo -
reformistas
dentro da ordem - concluo que uma sentença, legal e legítima, dentro do
Estado
de Direito que eles ajudaram a forjar e os acolheu, tanto pode ser justa
como
injusta. E ela pode ser injusta quando, por exemplo, fica suprimido o
princípio
da presunção da inocência, para decidir-se - mais do que sobre os réus -
também
sobre um período histórico determinado. Períodos em que as próprias
instituições
judiciais estiveram cativas (como a ditadura), ou que estas não estavam
cativas
mas não concordaram, no todo ou em parte, com o que ocorreu no período
(governo
Lula). Como disse um eminente ex-líder da oposição, com o que foi
realizado “por
essa raça”.
Mesmo quando o processo politiza-se em excesso, por
interesses claros e imediatos, para interferir em processos eleitorais,
isso é
Justiça concreta da ordem realizada plenamente. Assim, o Estado
Democrático de
Direito deve ser preservado e defendido, não porque ele seja justo “em
abstrato”, mas porque ele é a forma histórica concreta mais avançada de
preservar os direitos democráticos do povo e a dignidade humana. Porque
ele é
ambíguo: fruto de uma revolução é também fruto de um processo
conservador;
organizador de uma nova forma de dominação é, também, receptor de
instituições
libertárias; repressor é, também, aberto ao desejo; autoritário é,
igualmente,
politizado. E, sobretudo, deve ser preservado, porque a humanidade ainda
não
forjou instituições superiores às que funcionaram ou funcionam nas suas
melhores
experiências nacionais, embora isso não queira dizer “conservá-lo”, nem
no
formol do positivismo, nem na falsificação metafísica das suas
finalidades.
Uma frase de efeito dita por um dos ministros mais
eminentes
da Suprema Corte neste processo do “mensalão”, sintetiza toda esta
contradição e
a possibilidade de uma verdadeira crise de legitimidade da Suprema
Corte, no
próximo período, em função de julgamentos que começam a pipocar na
primeira
instância sobre os torturadores da ditadura: os réus –disse ele- deste
processo
(“mensalão”) são os “profanadores da República”.
Segundo o
Aurélio,
“profanar” significa “transgredir”, “violar” a República, uma abstração
jurídica
e política, como se sabe. Pois bem, a mesma Corte, em decisão recente,
interpretativa da Lei de Anistia, entendeu que os assassinos à
sangue-frio
dentro dos cárceres, os torturadores, estupradores de mulheres indefesas
sob
custódia do Estado - que torturaram filhos na frente dos pais e pais na
frente
de filhos- que assassinaram adolescentes, jovens e velhos, estão
abrigados na
Lei de Anistia, porque cometeram delitos em “conexão” com as políticas
de defesa
da ordem política da ditadura.
A transgressão aos princípios
abstratos da
República transformou os agentes governamentais ligados ao governo Lula,
no
“mensalão”, em “profanadores”. Mas os assassinatos e torturas concretas -
contra
pessoas indefesas sob custódia do Estado - transformou os agentes da
ditadura em
“políticos”, abrigados na Lei de Anistia?
Ambos os julgamentos,
como se
vê, tiveram um grau de politização dentro da legalidade vigente, que
superou a
devida atenção ao sistema de normas do Estado de Direito. E isso ocorreu
porque
ambos, em última instância, deveriam ir além dos réus, atuais ou
futuros. Em
ambos os casos eram julgados distintos períodos históricos da História
pátria,
que deveriam ser preservados ou “profanados”, pelas decisões
majoritárias da
Corte, que são construídas a partir das visões de mundo, da ideologia e
das
preferências políticas dos seus ministros.
Tudo isso pôde ser
feito
dentro da lei e com legitimidade, pois o Estado Democrático de Direito,
como já
defendi em outro artigo, tem espaços de construção doutrinária amplos,
que
permitem proferir - com legitimidade - tanto sentenças justas como
injustas. Não
seria um programa mínimo da decência jurídica do país, exigir do Supremo
que ele
inclua no rol dos “profanadores” da República os torturadores dos corpos
da
República?
Esta tarefa, ao lado da Reforma Política, deve ser
uma agenda
da esquerda que, ao longo do governo Lula, majoritariamente declinou de
ampliar
as conquistas políticas democráticas no Estado Democrático de Direito,
através
de uma certa acomodação economicista e pragmática na direção do
Estado.
Quero sustentar, finalmente, que defender a dramatização
excessiva do resultado deste julgamento, será um favor para quem
pretende deixar
de lado a agenda das reformas institucionais, necessárias para que não
mais
aconteçam fatos e processos como estes. Um estranho processo político,
no qual a
mídia precede o Ministério Público, antecipa a decisão do Supremo e
constrói uma
agenda eleitoral que dá causa e oxigênio a uma oposição que sequer tem
oxigênio.
Muito menos causa.
Hoje,
a minha companheira Sandra foi intimada e participou de uma audiência no forun central de
Porto Alegre. Foi como testemunha de uma acusação esdrúxula que sofri, feita
pelo MP, de situação que civilmente já fui absolvido. Nesta audiência, o MP na
inquirição fez a seguinte pergunta a Sandra: O René é político. A Sandra disse
que não era mais. O MP Perguntou onde trabalhava Renê. A Sandra respondeu que no
governo do Estado e o representante do MP de imediato, em voz solene disse “então ele é do PT!”, e disse que não
tinha mais perguntas a fazer!
Basta
ser do PT para ser suspeito e préviamente condenado!
Genuíno: "Retiro-me com a consciência dos inocentes'
O
texto abaixo sintetiza esta nova linha do MP/Judiciário no Brasil
José
De Abreu fala de política e história em entrevista: “Fernando Henrique Cardoso
era meu ídolo na época da faculadde, não o Lula”. Sobre partidos políticos,
revela: “o DEM acabou e o PSDB está acabando”
José
de Abreu, 66, acompanha com a mesma intensidade o desfecho de “Avenida Brasil”
e a conclusão do julgamento do mensalão no STF (Supremo Tribunal Federal).
Mensalão
e o PT
“Eu
nunca conversei com o Zé [José Dirceu] a respeito das denúncias. Acho que o PT
fez o que sempre se fez. É errado? Sim! Mas fez o que sempre se fez”.
“Por
que o PPS apoia o Serra em
São Paulo e o Paes/Lula/Dilma no Rio? Qual o sentido disso?
Roberto Freire [presidente do PPS] passa 24 horas por dia no Twitter metendo o
pau no Lula, chamando de ladrão e de corrupto, e fecha com o Paes aqui, com um
vice-candidato a prefeito do PT? É venda de espaço, venda de horário, venda da
sigla. Vou ser processado. Já estou sendo processado pelo Gilmar Mendes
[ministro do STF, por chamá-lo de corrupto no Twitter]]. Agora, talvez seja
processado pelo Freire.” –procurado pela reportagem, Roberto Freire declarou:
“Esse ator tem uma ética política que orbitava ao redor do PCB [Partido
Comunista Brasileiro]. Agora, ele não tem mais nada disso. Não merece meu
respeito nem a minha resposta.”
“O
Supremo quer mudar a maneira de fazer política no Brasil. Ótimo, maravilha!
Óbvio que tinha que começar com o PT. Então, agora para ser condenado no Brasil
basta ser preto, puta, pobre e petista.”
“O
grande organizador da base foi o Zé Dirceu. Eu não tenho informação de cocheira
para falar. Lendo a imprensa, deu para notar o seguinte. Antes do Lula ser
eleito, houve uma reunião dele com o Zé Dirceu dizendo que ele não queria mais
concorrer, né? E o Zé o convenceu com a ideia do José de Alencar
[ex-vice-presidente] ser vice, de abrir um pouco mais o PT, de fazer coligação
etc. Isso tudo foi o Dirceu quem fez não o Lula. Mas se for a história do
domínio do fato, tem que prender o Fernando Henrique por comprar a eleição
dele, porque tem provas. Agora se fala, eu sei que houve, mas não sei quem fez.
O deputado Ronnie Von Santiago [que era do PFL-AC] falou eu ganhou R$ 200 mil
para votar a favor da reeleição do Fernando Henrique. Ah, o FHC não sabia? Mas
pelo domínio do fato, não saber é como saber. Então se pode enquadrar qualquer
um, até o Lula, que sem dúvida nenhuma é o grande objetivo…”
“O
PT está virando o Brasil de cabeça para baixo, está colocando uma mulher na
presidência, um negro na presidência do STF, tirando 40 milhões da pobreza,
fazendo um cara que sai do Bolsa Família, do ProUni, fazer mestrado em Harvard,
ter os primeiros lugares do Enem.”
“Como
é que um operário sem dedo, semianalfabeto faz isso que nunca fizeram? O nosso
querido Fernando Henrique Cardoso, que era a minha literatura de axila na
faculdade, que era meu ídolo. Não o Lula. O Lula era da minha geração, o FHC de
uma anterior. Fernando Henrique, Florestan Fernandes eram os caras que queria
mudar o Brasil. Aí o Fernando Henrique tem a oportunidade e não faz? Vai para a
direita? É uma coisa louca. O que aconteceu? O PT e o PSDB nasceram da mesma
vértebra. Era para ser um partido só. O que acontece é que chegam ao poder e
vendem a alma ao diabo. Fica igual ao que foi feito nos 500 anos. O PT teve o
peito de tentar romper, rompeu e está pagando por isso.”
“Eu
votei no Fernando Henrique na primeira vez [na eleição de 1993]. Achava que ele
era melhor do que o Lula naquela oportunidade. E foi mesmo. O Lula foi melhor
depois.”
José
Dirceu e a Ditadura Militar
“Conheci
o Dirceu quando entrei na faculdade [no curso de direito da PUC-SP], na década
de 1960. Eu entrei na faculdade já no pau, tem uma piadinha que eu faço, que
quem não era de esquerda não comia ninguém. Porque ser de direita naquela época
era ou ser extremamente mau-caráter ou alienado. Alienado era bobão, não sabia
nem que existia a ditadura. Eu fui um dos representantes da faculdade na UNE
[União Nacional dos Estudantes]. Foi nessa época que eu fiquei mais próximo do
Dirceu.”
“Não
fui torturado durante a ditadura. Fui preso junto com o Zé Dirceu em Ibiúna, no
congresso da UNE,e m 1968. Eu fiquei preso uns dois meses, levei uns tapas na
cabeça, quando ia para o Dops [Departamento de Ordem Política e Social] prestar
depoimento.”
“A
coisa ficou pesada depois do AI-5 [ato institucional que restringiu mais as
liberdades civis], eu fui solto dois dias antes, foi a maior sorte. No dia 13
de dezembro, fui na faculdade, no Tuca e o porteiro disse que a polícia tinha
ido atrás de mim, de armas. Nunca peguei em armas, fui embora para o Rio, e
fiquei prestando apoio logístico para uma organização de esquerda. A única ação
que eu fiquei sabendo depois e eu participei foi transportar o dinheiro tirado
de um cofre do governador Adhemar de Barros [1901-1969].”
“O
meu contato com a organização era um concunhado que foi preso junto com a
Dilma, na rua da Consolação. Só tinha duas atitudes, ou entrar na luta armada
ou deixar a organização. Minha companheira estava grávida do meu primeiro
filho. Conversamos. Eu nunca pensei que poderíamos derrotar as forças armadas.
Éramos 500 mil, 600 mil estudantes, tinha operário e militar, mas a grande
maioria era estudante classe média.”
“Foi
quando eu fui para a Europa, em 1972, para Londres, Amsterdã. Virei místico,
fui estudar hinduísmo, filosofia oriental. Fiz ioga, meditação, macrobiótica,
fui vegetariano, meditava quatro vezes por dia, vivia numa ilha grega, comendo
frugal. Lá tomei ácidos. Muitos com orientação, para fazer pesquisa. Tinha um
livro que ensinava. Tinha uma pessoa que brincava com o incenso. O contato foi
maravilhoso. Era algo cósmico. No Brasil, enquanto a gente estava gritando paz
no Vietnã, nos EUA eles gritavam ‘make love’ [faça amor]. Era a mesma coisa,
mas um tinha um lado hippie, lisérgico. A minha geração, alguns amigos ficaram
na esquerda, outros fizeram a revolução já hippie. Eu tive o privilégio de
fazer parte dos dois lados.”
“Quando
voltei ao Brasil anos depois, fui dar aulas em Pelotas, me desliguei dessa
parte política e me foquei na arte. Me meti na profissão, fui ter filho e
cuidar deles como o John Lennon fez. Limpando a bunda, acordando de madrugada
para dar de mamar. Sendo um pai e mãe. Dividindo igualmente tudo e foi
lindo.Depois fui para Porto Alegre, comecei a produzir música, levei Gilberto
Gil, Rita Lee, Novos Baianos. Montei uma peça do Chico Buarque, ‘Saltimbancos’.
Acabei fazendo um filme muito louco, ‘A Intrusa’, ganhei um prêmio em Gramado e
a Globo estava lá e me chamou.”
Internet
“Na
segunda eleição do Lula, eu tinha um blog e fui muito atacado. Eu estava no
Acre, fazendo a minissérie ‘Amazônia’. Aquela eleição já foi muito
radicalizada. Eu sou viciado em internet há muito tempo. Fui um dos primeiros
atores a ter uma senha do Ministérios das Comunicações. Em 1994, 1995, já usava
internet num provedor que o Betinho [Hebert de Souza] tinha por causa do Ibase
[Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas]. Eu, o Paulo Betti, o
Pedro Paulo Rangel fomos os primeiros atores a usar internet. Eu fiz muito ator
comprar computador e ter internet. O mais comum era ouvir ‘não gosto de
internet’. Mas no futuro ia ser algo como não gostar de telefone, de
liquidificador. O José Mayer me apelidou de Zé Windows.”
“Sou
geminiano, gosto de comunicação e cai no Twitter com a história da campanha da
Dilma, que foi a primeira campanha em que as redes sociais foram muito usadas.”
Dilma
Rousseff
“Não
tive contato com a Dilma durante a ditadura. A gente era da mesma organização
[VAR-Palmares]. Só se for fazer muita ilação. Não vou dar uma de Joaquim
Barbosa…”
“Lula
é Dilma e Dilma é Lula. Isso é um mantra, a cumplicidade dos dois é total.
Quando o Lula começou com essa história de ter Dilma como candidato, todo mundo
assustou. O pessoal do PT mesmo, o Lula pirou, como faz? Nunca tinha acontecido
isso, uma pessoa que não tinha ganhado nenhuma eleição ser candidata a
presidente.”
Ministério
da Cultura e a Política de Cotas
“Eu
não sei o que foi aquilo [Ana de Hollanda]. Um dia a gente ainda vai saber o
que aconteceu. Depois ferrou, a Dilma é teimosa, não ia tirá-la na pressão. Ela
esperou acabar tudo para trocar o ministério. A Ana é esquisita, uma pessoa
difícil. Eu fui falar com ela uma vez, foi muito difícil. Quando entrou, batia
de frente com o PT inteiro, com os deputados todos que cuidavam da cultura.
Achei uma desfaçatez com o ministério da Cultura.”
“Agora
precisa um levantamento para saber o deve ser feito. Mas a chegada da Marta
[Suplicy] foi muito boa.”
“Sou
a favorzaço de cota em tudo.
Nós temos uma dívida. Há quantos anos um negro não podia
entrar na faculdade? Podia pela lei, mas não entrava. Não tinha oportunidade
igual. Na minha classe, tinha um negro em 50 alunos. Os ricos têm a impressão
de que vão roubar deles. Mas o Lula conseguiu mostrar que dá para dividir e
eles ganharam mais dinheiro ainda porque entrou muita gente no mercado para
comprar coisas. Por mais que a Dilma dê porrada nas montadoras, elas estão
amando a presidente.”
“Foi
uma surpresa [cota para negros em edital do MinC], eu não li o projeto, mas a
rigor, eu acho que o Brasil tem um débito muito grande e se for contar a
escravatura, o débito não se paga nunca.”
“Não
esperava que o Brasil fosse dar esse salto de assumir que é racista, de o
governo assumir que existe racismo, de que existem problemas sérios, de que o
brasileiro não é cordial com os seus. O brasileiro sabe explorar seus
empregados. Hoje em dia, ter empregada doméstica está cada vez mais difícil. É
claro! Quem quer lavar a cueca de um marido que não seja seu. É degradante.”
Futuro
do PT e Presidência em 2014 e 2018
“Vou
chutar aqui. Se o Eduardo Paes [prefeito do Rio] fizer um puta governo, agora
com a Olimpíada, com a Copa, vai ganhar uma visibilidade absurda, pode
enlouquecer e querer ser presidente pelo PMDB, sem ter sido governador.
Obviamente, o Eduardo Campos [governador de Pernambuco, pelo PSB] é uma coisa
natural, neto do Miguel Arraes.”
“O
PSDB está acabando, o DEM acabou, o partido do Kassab [PSD] conseguiu algumas
coisas, mas ele tomou o partido e agora está perdendo força. Kassab quis ser o
Lula. Se o Haddad fizer um bom governo, se for eleito prefeito e ficar quatro,
depois mais quatro pode ser um candidato em 2018. Daqui a seis anos o Lula
ainda tem idade para tentar a presidência, mas se eu fosse ele, ia ser
governador de São Paulo, só para acabar com a brincadeira [do PSDB]. Aí ficava
Lula, Dilma e Haddad. São Paulo ia ser capital do mundo.”
O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, foi nomeado pelo presidente Fernando Collor de Mello, seu primo, em maio de 1990.
Com guardiões da Constituição como esse, manifestamente indigno do cargo que ocupa, quem precisa de golpistas?
Deveria defender a democracia, mas afirma que A DITADURA FOI UM MAL NECESSÁRIO!
Que capacidade pessoal, ética e moral têm, para julgar alguém?
Esse cidadão, Marco Aurélio Mendes de Faria
Mello, é sobrinho de Arnon Affonso de Farias Mello, ex-governador nomeado pela
ditadura militar, pai do ex-presidente Fernando Affonso Collor de Mello.
O anticomunismo é o discurso perfeito para
quem não tem compromisso algum com a democracia e o Estado de Direito.
Nada me surpreende neste boquirroto golpista,
saudosista da ditadura.
Cada um pode dizer a
estupidez que quiser. Gente como esse ministro, comentarista 'supra' se irmanam
no culto à violência e ao arbítrio. Ainda bem que hoje são franca minoria na sociedade
brasileira.
Por fim, importante lembrar que, maioria do povo do Brasil
de hoje, é igual a minoria daquela época: Estão prontos para defender em todos
os cantos do país a democracia!
“E sobre o outro, vocês não vão perguntar
nada?”. Segundo a colunista, o ministro recebe como resposta “sorrisos
amarelos”
Relator de ambos os
mensalões no STF, o ministro Joaquim Barbosa assume a presidência do
tribunal em novembro e, segundo informações da colunista Mônica Bergamo,
da Folha de S.Paulo, não deve levar os processos que estão sob sua
responsabilidade para relatar. Dessa forma, a relatoria do mensalão
mineiro ficará nas mãos do ministro que a presidente Dilma Rousseff
nomeará no lugar do atual presidente da corte, o ministro Carlos Ayres
Britto, que se aposenta em novembro.
Segundo Joaquim Barbosa,
“a imprensa nunca deu bola ao ‘mensalão mineiro’”. As informações também
são da coluna de Bergamo. A colunista informa que Barbosa acredita que o
risco de prescrição no mensalão tucano é até maior do que havia no
mensalão federal. O ministro ainda teria dito a interlocutores que, se
no caso do mensalão petista tudo quase sempre foi aprovado por
unanimidade no STF, no mineiro as dificuldades sempre foram maiores.
O futuro presidente do
STF também questiona a imprensa em relação ao mensalão mineiro. Quando
procurado por repórteres para falar do processo contra petistas,
provoca, ao fim da entrevista: “E sobre o outro, vocês não vão perguntar
nada?”. Segundo a colunista, o ministro recebe como resposta “sorrisos
amarelos”.
Mensalão do DEM
Outro esquema de
corrupção que ganhou a alcunha “mensalão” foi o que envolveu a cúpula do
governo de José Roberto Arruda no Distrito Federal, entre 2007 e 2010. O
mensalão do DEM do DF, como ficou conhecido, veio a público no final de
2009 por meio da Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal (PF),
tendo como base depoimentos do então secretário de Relações
Institucionais do Governo, Durval Barbosa, que aceitou colaborar com a
PF em troca de redução da pena em caso de condenação.
Apesar de ser chamado de
mensalão do DEM, envolveu políticos de outros partidos. Entre os
supostos envolvidos destacavam-se: o então governador do DF, José
Roberto Arruda; o seu vice, o empresário Paulo Octávio; o então
presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, Leonardo Prudente;
o deputado distrital Júnior Brunelli (PSC); o então deputado federal
Augusto Carvalho (PPS); e a então líder do governo na Câmara Legislativa
na época, Eurides Brito (PMDB).
Quase três anos após a
operação Caixa de Pandora, o procurador-geral da República, Roberto
Gurgel, ofereceu denúncia ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra
37 acusados (veja a lista completa de acusados aqui).
Os crimes pelos quais eles serão investigados são: corrupção – ativa e
passiva –, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. A denúncia será
apreciada e julgada pelo STJ porque um dos envolvidos é conselheiro de
tribunal de contas e tem direito àquele foro privilegiado.
O PT gaúcho, cuja principal figura é hoje o governador Tarso
Genro, busca uma reformulação após a expressiva derrota na prefeitura de
Porto Alegre
Mauricio Tonetto
Direto de Porto Alegre
Eles fizeram história ao comandar Porto Alegre por 16 anos consecutivos (1989 a 2004) e ajudaram a consolidar o PT no País, deixando legados como o Orçamento Participativo e o Fórum Social Mundial. Porém, após a retumbante derrota de Adão Villaverde
na disputa pela prefeitura neste ano, obtendo apenas 76.548 votos
(9,6%) - o pior índice da história da sigla no Estado -, os ex-prefeitos
Raul Pont, João Verle, Tarso Genro e Olívio Dutra pregam a autocrítica e
o retorno às raízes para recuperar o prestígio na cidade. Criticando os
próprios correligionários que negam o mensalão, eles cobram mudanças e o
fim da acomodação para voltar à vitrine. Porto Alegre: PT promete autocrítica após pior derrota da história RS: em 3º, Villa diz que é preciso entender motivo da derrota Confira quanto ganham os prefeitos e vereadores nas capitais brasileiras "A nossa linha sucessória, que vinha se dando ao natural, pela
continuidade do projeto coletivo, passou a ser ideia de alguém, de
pessoas e quadros, contaminando também a militância", avaliou Olívio
Dutra, prefeito de 1989 a 1992 e governador do Estado de 1999 a 2002.
Segundo ele, o PT precisa se repensar agora para não ser "engolido pela máquina pública e partidária". "O PT não nasceu de gabinetes, mas hoje há quadros cuja profissão é pular de eleição
em eleição para se manter na burocracia. Assim, começamos a ficar como a
velha política tradicional. Na base do partido existe muita
insatisfação com essa acomodação. Precisamos discutir os reflexos de
estarmos sendo, de forma acelerada, engolidos pela máquina pública e
partidária. Não podemos ser o partido da acomodação, mas da
transformação", disse. Entre as razões para o fracasso na capital gaúcha, as lideranças
petistas apontam inércia, desunião com a esquerda, disputa interna por
espaços, falta de novas lideranças afirmadas, esgotamento da agenda e
distanciamento das raízes populares e de atuação social. De acordo com
eles, o prefeito José Fortunati(PDT) - filiado ao PT de 1980 a 2002 - se aproveitou disso para fazer 517.969 votos (65,22%), elegendo-se tranquilamente no primeiro turno. "Esgotamos a agenda. As três grandes novidades implantadas aqui - participação popular, inversão das prioridades e cidade global - foram assimiladas e defendidas por outros partidos. Como o PT
não inovou e não renovou, a tendência do eleitorado é votar num
candidato que está mais próximo à realidade política, normalmente o
próprio prefeito. O PT tem que refundar a sua agenda e reestruturar sua
visão de cidade", opinou o governador Tarso Genro, que foi prefeito de
1993 a 1997 e de 2001 a 2002. Críticas ao mensalão
Ao contrário de figuras marcantes do PT nacional, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
que negam a existência do mensalão, os ex-prefeitos gaúchos têm posição
firme e se posicionam publicamente contra o esquema criminoso de compra
de apoio político, julgado no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo
eles, a campanha de Porto Alegre
foi prejudicada pelo escândalo. Entre os condenados pelo STF estão o
ex-presidente nacional do PT José Genoíno e o ex-ministro José Dirceu,
principal apoiador de Lula no primeiro mandato. "Uma das nossas características era a ética e o combate à corrupção.
Os fatos recentes levaram todos a dizer que o PT é igual a todos. Isso
afetou bastante o prestígio e o apoio que tínhamos aqui, influenciou
bastante", entende João Verle, prefeito de 2002 a 2004. "O Lula tem dito 'o povo não se importa' e eu acho isso um erro.
Depois de umas pessoas importantes terem negado a existência do
mensalão, o PT no Sul teve uma postura diferente. Porém, não podemos
ficar nos insurgindo contra o governo federal e também sofremos com
isso. O povo, que olhava o PT com simpatia, passou a ter desconfiança.
Isso é um patrimônio que precisa ser resgatado", corroborou Olívio
Dutra. Inércia e radicalização
Prefeito eleito em 1996, Raul Pont, atualmente deputado estadual e
presidente da sigla no Rio Grande do Sul, também sinaliza como problemas
deste pleito a inércia e a falta de consenso em torno de um nome que
atraísse um grande número de votos. Ele retirou a sua pré-candidatura no
final de 2011 para evitar um racha. "Nós insistimos que, pela dificuldade que teríamos na disputa, era
importante um nome de muita densidade eleitoral. Mas o partido não
construiu esse consenso e agora terá que se debruçar sobre isso. A opção
dos eleitores por Fortunati foi dada por uma inércia e pelo
desconhecimento da nossa candidatura, pagamos um alto preço", afirmou. Para Olívio Dutra, "o PT está longe de ter esgotado o seu projeto",
mas precisa voltar a se radicalizar: "Nós fomos reduzindo a nossa
radicalidade e nossas bandeiras foram sumindo. Defendemos coisas
permanentes, como radicalizar a democracia e ir além do bom discurso.
Democracia deve ser vivida no plano econômico, social, político e
cultural. Temos de questionar as coisas pela raiz." A votação média da legenda nas últimas eleições municipais foi de
331.578 votos, quatro vezes maior que o desempenho deste ano. "Acho que
houve um certo pecado da campanha em explicar qual era a nossa crítica e
porque somos oposição ao governo. Não conseguimos ser mais
esclarecedores", analisou Raul Pont. Em 2008, o PT amargou a derrota de Maria do Rosário no segundo turno,
com 327.799 votos, contra 470.696 de José Fogaça (PMDB), que
protagonizou a primeira reeleição em Porto Alegre, com Fortunati como
seu vice. Em 2004, no PPS, ele havia vencido Raul Pont no segundo turno,
com 53,32% dos votos válidos, contra 46,68% do petista.
Filha de José Genoino divulga carta em defesa do pai
Veja a íntegra da carta escrita por Miruna Genoino:
“A coragem é o que dá sentido à liberdade.
Com essa frase, meu pai, José Genoino Neto, cearense, brasileiro,
casado, pai de três filhos, avô de dois netos, explicou-me como estava
se sentindo em relação à condenação que hoje, dia 9 de outubro, foi
confirmada. Uma frase saída do livro que está lendo atualmente e que me
levou por um caminho enorme de recordações e de perguntas que realmente
não têm resposta.
Lembro-me que quando comecei a ser consciente daquilo que meus
pais tinham feito e especialmente sofrido, ao enfrentar a ditadura
militar, vinha-me uma pergunta à minha mente: será que se eu vivesse
algo assim teria essa mesma coragem de colocar a luta política acima do conforto e do bem estar individual? Teria coragem de enfrentar dor e injustiça em nome da democracia?
Eu não tenho essa resposta, mas relembrar essas perguntas me fez
pensar em muitas outras que talvez, em meio a toda essa balbúrdia,
merecem ser consideradas…
Você
seria perseverante o suficiente para andar todos os dias 14km pelo
sertão do Ceará para poder frequentar uma escola? Teria a coragem
suficiente de escrever aos seus pais uma carta de despedida e partir
para a selva amazônica buscando construir uma forma de resistência a um
regime militar? Conseguiria aguentar torturas frequentes e constantes,
como pau de arara, queimaduras, choques e afogamentos, sem perder a
cabeça e partir para a delação?
Encontraria forças para presenciar sua futura companheira de vida
e de amor ser torturada na sua frente? E seria perseverante o
suficiente ao esperar 5 anos dentro de uma prisão até que o regime
político de seu país lhe desse a liberdade?
Você seria corajoso o suficiente para enfrentar eleições
nacionais sem nenhuma condição financeira? E não se envergonharia de
sacrificar as escassas economias familiares para poder adquirir um terno
e assim ser possível exercer seu mandato de deputado federal? E teria
coragem de ao longo de 20 anos na câmara dos deputados defender os
homossexuais, o aborto e os menos
favorecidos? E quando todos estivessem desejando estar ao seu lado, e
sua posição fosse de destaque, teria a decência e a honra de nunca
aceitar nada que não fosse o respeito e o diálogo aberto?
Meu pai teve coragem de fazer tudo isso e muito mais. São mais de 40 anos dedicados à luta política. Nunca, jamais para benefício
pessoal. Hoje e sempre, empenhado em defender aquilo que acredita e que
eu ouvi de sua boca pela primeira vez aos 8 anos de idade quando
reclamava de sua ausência: ‘a única coisa que quero, Mimi, é melhorar a
vida das pessoas…’
Este seu desejo, que tanto me fez e me faz sentir um enorme
orgulho de ser filha de quem sou, não foi o suficiente para que meu pai
pudesse ter sua trajetória defendida. Não foi o suficiente para que
ganhasse o respeito dos meios de comunicação de nosso Brasil, meios
esses que deveriam ser olhados através de outras tantas perguntas…
Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação de
informações e a especulação? Se sentiria feliz, praticamente em êxtase,
em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma
excelente ideia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em
nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um
fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um
procedimento cardíaco? Dedicaria suas energias a colocar-se em dia de
eleição a falar, com a boca colada na orelha de uma pessoa, sobre o medo
a uma prisão que essa mesma pessoa já vivenciou nos piores anos do
Brasil?
Pois os meios de comunicação desse nosso País sim tiveram coragem de fazer isso tudo e muito mais.
Hoje, neste dia tão triste, pode parecer que ganharam, que seus
objetivos foram alcançados. Mas ao encontrar-me com meu pai e sua
disposição para lutar e se defender, vejo que apenas deram forças para
que esse genuíno homem possa continuar sua história de garra,
honestidade e defesa daquilo que sempre acreditou.
Nossa família entra agora em um período de incertezas. Não
sabemos o que virá, e, para que seja possível aguentar o que vem pela
frente, pedimos encarecidamente o seu apoio. Seja divulgando este e/ou
outros textos que existem em apoio ao meu pai, seja ajudando no cuidado a
duas crianças de 4 e 5 anos que idolatram o avô e que talvez tenham que
ficar sem sua presença, seja simplesmente mandando uma palavra de
carinho. Neste momento, qualquer atitude, qualquer pequeno gesto nos
ajuda, nos fortalece e nos alimenta para ajudar meu pai.
Ele lutará até o fim pela defesa de sua inocência. Não ficará de
braços cruzados aceitando aquilo que a mídia e alguns setores da
política brasileira querem que todos acreditem e, marca de sua
trajetória, está muito bem e muito firme neste propósito, o de defesa de
sua inocência e de sua honestidade. Vocês que aqui nos lêem sabem de
nossa vida, de nossos princípios e de nossos valores. E sabem que,
agora, em um dos momentos mais difíceis de nossa vida, reconhecemos aqui
humildemente a ajuda que precisamos de todos, para que possamos seguir
em frente.
"No dia 12 de outubro de 1968, durante a realização do XXX
Congresso da UNE, em Ibiúna, fui preso, juntamente com centenas de estudantes
que representavam todos os estados brasileiros naquele evento. Tomamos, naquele
momento, lideranças e delegados, a decisão firme, caso a oportunidade se nos
apresentasse, de não fugir.
Em 1969 fui banido do país e tive a minha nacionalidade cassada, uma ignomínia
do regime de exceção que se instalara cinco anos antes.
Voltei clandestinamente ao país, enfrentando o risco de ser assassinado, para
lutar pela liberdade do povo brasileiro.
Por 10 anos fui considerado, pelos que usurparam o poder legalmente
constituído, um pária da sociedade, inimigo do Brasil.
Após a anistia, lutei, ao lado de tantos, pela conquista da democracia.
Dediquei a minha vida ao PT e ao Brasil.
Na madrugada de dezembro de 2005, a Câmara dos Deputados cassou o mandato que o
povo de São Paulo generosamente me concedeu.
A partir de então, em ação orquestrada e dirigida pelos que se opõem ao PT e
seu governo, fui transformado em inimigo público numero 1 e, há sete anos, me
acusam diariamente pela mídia, de corrupto e chefe de quadrilha. Fui prejulgado
e linchado. Não tive, em meu benefício,
a presunção de inocência.
Hoje, a Suprema Corte do meu país, sob forte pressão da imprensa, me condena
como corruptor, contrário ao que dizem os autos,
que clamam por justiça e registram, para sempre, a ausência de provas e a minha
inocência. O Estado de Direito Democrático e os princípios constitucionais não
aceitam um juízo político e de exceção.
Lutei pela democracia e fiz dela minha razão de viver. Vou acatar a decisão,
mas não me calarei. Continuarei a lutar até provar minha inocência. Não
abandonarei a luta. Não me deixarei abater.
Minha sede de justiça, que não se confunde com o ódio, a vingança, a covardia
moral e a hipocrisia que meus inimigos lançaram contra mim nestes últimos anos,
será minha razão de viver.
Vinhedo, 09 de outubro de 2012
José Dirceu"